Renováveis ganham terreno ao petróleo até 2030

A equação fundamental da energia é simples: mais população com maior rendimento significa que a produção e o consumo vão subir. Segundo a BP, o consumo primário vai aumentar 40% até 2030, impulsionado, quase em exclusivo, pelas economias emergentes. Pela primeira vez, os combustíveis não fósseis serão a principal fonte de crescimento. No entanto, as emissões atingem o seu pico em 2020, 20% acima dos valores de 2005 e superiores às metas internacionais. 

 

O crescimento energético mundial durante os próximos 20 anos deverá ser dominado por economias emergentes como a China, Índia, Rússia e Brasil, enquanto as melhorias operadas no campo da eficiência energética vão acelerar.

 

De acordo com o cenário base definido pela petrolífera britânica, correspondente à projecção mais provável, o consumo energético primário deverá aumentar quase 40% nas duas décadas que agora se iniciam, com uma fatia de 93% desta expansão a ter origem em países exteriores à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Desta forma, as nações não pertencentes à organização vão incrementar rapidamente a sua quota da procura por energia à escala global, de pouco mais de metade, hoje, para dois terços em 2030. Acresce que, durante o mesmo período, a intensidade energética, uma medida chave da utilização de energia por unidade de produção económica, irá melhorar a nível mundial, impulsionada pelos ganhos de eficiência nas mesmas economias.  

 

DIVERSIFICAÇÃO DO MIX ENERGÉTICO

A multiplicação de fontes de energia vai acentuar-se, com os combustíveis não fósseis, sobretudo a energia nuclear, hidráulica e renovável a assumirem, em conjunto, o papel de principal fonte de crescimento pela primeira vez na história da humanidade. Neste quadro, entre 2010 e 2030, o contributo das energias renováveis (solar, eólica, geotérmica e biocombustíveis) para o crescimento energético deve avançar de 5% para o patamar dos 18%.

 

Por seu lado, o gás natural será o combustível fóssil de mais rápido crescimento, enquanto o carvão e o petróleo devem perder quota de mercado, com a totalidade dos combustíveis fósseis a apresentarem taxas de expansão mais reduzidas. Neste sentido, a contribuição desta classe de combustíveis para o incremento do consumo energético primário deve recuar de 83% para a fasquia dos 64%.

 

Recorde-se que a procura petrolífera no seio da OCDE atingiu o seu pico em 2005 e, em 2030, deverá regressar para níveis próximos dos apurados em 1990. Quanto aos biocombustíveis, vão representar 9% dos combustíveis utilizados no sector dos transportes ao redor do globo.

 

Segundo as projecções da BP, a procura energética primária mundial vai registar um crescimento médio anual de 1,7% entre 2010 e 2030, embora esta tendência de expansão deva desacelerar ligeiramente depois de 2020. Em particular, o consumo de energia fora do espaço da OCDE será 68% superior ao actual em 2030, com um crescimento médio de 2,6% por ano, correspondendo a 93% do crescimento energético global. Em contraste, o crescimento da OCDE vai limitar-se a uma média anual de 0,3% durante os próximos 20 anos. Acresce que, a partir de 2020, o consumo per capita no espaço de influência da OCDE vai apresentar uma tendência decrescente de menos 0,2 pontos percentuais por ano.

 

TRANSPORTES ABRANDAM 

A subida da utilização de energia nos transportes vai abrandar, penalizada pela quebra registada na OCDE. Como referido, a procura total de petróleo e outros combustíveis líquidos na região alcançou o seu ponto máximo em 2005 e vai regressar aos valores de 1990 em 2030. Perto do final do período em análise, a procura de carvão no mercado chinês deixará de aumentar, com o gigante asiático a transformar-se no maior consumidor mundial de petróleo.

 

OPEP GANHA PESO...

A quota da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) na produção global de crude vai avançar para a marca dos 46%, um nível que não é observado desde o ano de 1977. Em simultâneo, a dependência das importações de petróleo e gás natural nos EUA vai cair para níveis inéditos desde a década de 90 do século passado, devido à melhoria da eficiência e ao incremento da quota de utilização de biocombustíveis na maior economia mundial. A taxa de crescimento do consumo global sofrerá ainda o impacto do aumento dos preços do barril de crude, contabilizado nos últimos anos, bem como da redução gradual dos subsídios nos países importadores de petróleo.

 

... MAS CRUDE PERDE PROTAGONISMO

O mix de combustíveis altera-se com o decorrer do tempo, reflectindo o longo período de vida dos activos. Neste âmbito, o petróleo, excluindo os biocombustíveis, vai crescer lentamente, a uma cadência de 0,6% por ano, enquanto o gás natural deverá beneficiar de uma taxa de expansão mais de três vezes superior à projectada para o crude, na casa dos 2,1% anuais. Por seu lado, o carvão vai aumentar em 1,2 pontos percentuais por ano e, em 2030, deve fornecer um volume de energia equiparável ao do petróleo, excluindo os biocombustíveis. Sublinhe-se ainda que o reforço das medidas de combate às emissões poluentes nos países da OCDE arrisca-se a ser mais do que compensado pelo crescimento esperado para as economias emergentes.

 

A energia eólica e solar, os biocombustíveis e outras fontes energéticas renováveis vão continuar a crescer fortemente, elevando a sua quota na energia primária dos actuais menos de 2% para os mais de 6% projectados para 2030. Em concreto, os biocombustíveis vão fornecer 9% dos combustíveis no sector dos transportes e as energias nuclear e hidráulica vão crescer de forma consistente e conquistar quota de mercado no consumo energético total. Neste ponto, cumpre referir que a projecção da BP resulta de análises estatísticas anteriores ao acidente na central nuclear japonesa de Fukushima, que motivou um recuo da aposta na energia atómica em países como a Alemanha.

 

"A desaceleração do crescimento da energia total nos transportes está relacionada com a subida dos preços do petróleo e com a melhoria da economia de combustível, saturação de veículos nas economias maduras e as subidas esperadas nos impostos, acompanhadas de uma redução dos apoios financeiros, nos países em vias de desenvolvimento", explica a propósito Christof Rühl, economista-chefe da BP. "Em termos percentuais, a procura petrolífera sofre a maior queda no sector energético (-30%), uma vez que esta é a indústria em que é mais fácil substituir o crude por gás natural ou por energias renováveis, sendo ainda a área em que é mais provável a implementação de taxas sobre o carbono", acrescenta o responsável.

 

INTENSIDADE ENERGÉTICA

Desde 1900, a população mundial mais do que quadruplicou o rendimento real, medido pelo Produto Interno Bruto (PIB), multiplicou-se por 25 e o consumo energético primário cresceu 23 vezes. Neste quadro, a energia por unidade de rendimento continua a diminuir, uma tendência de descida que se irá acentuar. "Isto é verdade no outlook para 2030, não apenas para a média global, mas também para a maioria dos principais países e regiões. A conjugação dos ganhos de eficiência energética com a deslocação estrutural de longo prazo no sentido de actividades menos intensivas do ponto de vista do recurso à energia, à medida que as economias se desenvolvem, sustenta esta tendência", destaca o economista-chefe da BP.

 

EMERGENTES COMANDAM PROCURA

O consumo global de combustíveis líquidos vai fixar-se nos 102,4 milhões de barris por dia em 2030. No entanto, o incremento líquido de 16,5 milhões de barris antecipado para os próximos 20 anos tem exclusivamente origem nas economias emergentes não pertencentes à OCDE. As nações asiáticas de fora da OCDE vão ser responsáveis por perto de dois terços do crescimento do consumo nos países que não pertencem à organização ao longo dos próximos 20 anos e por mais de três quartos do aumento líquido global, subindo em quase 13 milhões de barris diários.

 

Por outro lado, as maiores fontes de nova oferta terão origem na OPEP: crude convencional na Arábia Saudita e no Iraque, bem como Gás Natural Liquefeito (GNL), que não está sujeito às quotas do cartel. Por outro lado, os combustíveis líquidos não abrangidos pela influência da OPEP devem crescer de forma modesta, impulsionados por um incremento significativo no segmento dos biocombustíveis, em combinação com um conjunto de aumentos inferiores nas areias betuminosas do Canadá e nos poços de águas profundas no offshore do Brasil.

 

A BATALHA DOS COMBUSTÍVEIS

De acordo com as estimativas da BP, o petróleo vai prolongar a sua tendência de diminuição da quota de mercado, à medida que o gás natural ganha terreno. Os recentes avanços do carvão, apoiado pelos processos de industrialização em curso na Índia e na China, serão revertidos até 2030, com os três combustíveis fósseis a convergirem em torno de quotas de mercado de cerca de 27%.

 

Esta diversificação pode ser observada mais claramente em termos de quotas de crescimento. Assim, no período entre 1990 e 2010, os combustíveis fósseis contribuíram com 83% do crescimento energético. Em sentido contrário, nos próximos 20 anos, esta classe de combustíveis deve ser responsável por 64% desta expansão, enquanto as fontes renováveis (excluindo a energia hidráulica) e os biocombustíveis, combinados, equivalem já a 18% do crescimento energético até 2030.

 

A diversificação do mix de combustíveis está a ser impulsionada, em grande medida, pelos desenvolvimentos no sector energético. A energia usada para gerar electricidade continua a ser a área de mais rápido crescimento, representando 53% do aumento do consumo primário nos últimos 20 anos e 57% do crescimento que se vai verificar até 2030.

 

Em termos de utilização final, a indústria lidera o consumo. Deste modo, o papel desempenhado pelos transportes está a enfraquecer: ao longo das duas últimas décadas, a procura de energia no sector dos transportes cresceu sensivelmente ao mesmo ritmo da procura total, mas, nos próximos 20 anos, vai evoluir a uma cadência bastante inferior, adverte Christof Rühl.

 

BIOCOMBUSTÍVEIS FLORESCEM

A produção de combustíveis "verdes", sobretudo etanol, deve totalizar 6,7 milhões de barris por dia em 2030, em comparação com os 1,8 milhões de barris diários contabilizados no ano passado, contribuindo com 30% do crescimento da oferta global e com a totalidade da expansão líquida exterior à OPEP nos próximos 20 anos. Esta evolução rápida explica-se pelos apoios políticos reiterados, elevados preços do barril de petróleo e inovação tecnológica.

 

Os EUA e o Brasil vão continuar a dominar a produção de biocombustíveis, com 76% da produção global em 2010, uma quota que deve deslizar para 68% em 2030, para quando se antecipa o início do crescimento da região Ásia-Pacífico. "O mix energético global continua a diversificar-se, mas, pela primeira vez, os combustíveis não fósseis serão importantes fontes de crescimento da oferta", pode ler-se no "BP Energy Outlook 2030".

 

POLÍTICAS AMBIENTAIS CONDICIONAM FUTURO ENERGÉTICO

As projecções apresentadas pela BP partem do pressuposto de que as medidas continuadas de combate às alterações climáticas e de promoção da segurança energética se vão manter, com base nas actuais tendências. Neste sentido, a empresa desenvolveu um cenário alternativo, que explora as implicações de um reforço significativo do nível de compromisso político, traduzido num aperto das medidas de protecção ambiental. 

 

"O ponto fulcral deste cenário consiste na redução da dependência face aos combustíveis com elevadas emissões de dióxido de carbono. Este objectivo pode ser atingido através de uma gama alargada de instrumentos, incluindo diversas formas de estabelecer um preço para o carbono", recorda o economista-chefe da BP, Christof Rühl.

 

Segundo as projecções da petrolífera, as emissões globais vão alcançar o seu pico logo após 2020, fixando-se, apesar de tudo, 20% acima dos níveis registados em 2005. Desta forma, a evolução das emissões poluentes deve exceder o Cenário 450 da Agência Internacional de Energia (AIE), sinalizando os esforços que serão necessários depois de 2030 para colocar o mundo "num caminho seguro".

 

Sublinhe-se que a redução das emissões será alcançada através da conjugação de ganhos de eficiência mais céleres, substituição de combustíveis (do carvão para o gás natural e dos combustíveis fósseis para a energia nuclear, hidráulica e renováveis) e introdução da captura e armazenamento de carbono, tanto para as centrais eléctricas a carvão, como a gás.

fonte:http://www.oje.pt/

publicado por adm às 22:16 | comentar | favorito