Nas renováveis Portugal serve de exemplo aos EUA

Com direito a destaque de primeira página, o artigo que se segue foi publicado esta semana pelo "New York Times"

 

Há cinco anos, os líderes deste país queimado pelo sol e batido pelo vento fizeram a aposta: para reduzir a dependência de Portugal dos combustíveis fósseis importados, embarcaram numa série de projectos ambiciosos de energias renováveis - explorando principalmente os recursos eólicos e hidroeléctricos mas também a luz do sol e as ondas do oceano.

Hoje, os bares da moda de Lisboa, as fábricas do Porto e os resorts luxuosos do Algarve são alimentados, de forma substancial, por energias limpas. Aproximadamente 45% da rede eléctrica de Portugal virá de fontes renováveis este ano, contra os 17% de há cinco anos.

A energia eólica de base terrestre - considerada este ano "potencialmente competitiva" em relação aos combustíveis fósseis pela Agência Internacional da Energia, em Paris - expandiu-se sete vezes no mesmo período de tempo. E Portugal espera tornar-se, em 2011, no primeiro país a inaugurar uma rede nacional de postos de carregamento para automóveis eléctricos.

"Vi os sorrisos: é um bom sonho. Não é competitivo. É demasiado caro", diz o primeiro-ministro, José Sócrates, recordando como Silvio Berlusconi, o primeiro-ministro italiano, ofereceu-se, a brincar, para lhe construir um Ferrari eléctrico. Sócrates acrescenta: "A experiência de Portugal mostra que é possível fazer estas mudanças num curto espaço de tempo."

O derrame de petróleo no Golfo do México renovou as questões acerca dos riscos e custos imprevisíveis da continuada dependência dos Estados Unidos nos combustíveis fósseis. O presidente Barack Obama agarrou a oportunidade de promover o seu objectivo de ter 20 a 25% da electricidade americana produzida a partir de fontes renováveis em 2025.

Embora a experiência de Portugal mostre que o progresso rápido é alcançável, demonstra também o preço de tal transição. Os lares portugueses há muito que pagam o dobro do que os americanos pela electricidade, e os preços subiram 15% nos últimos cinco anos, provavelmente por causa do programa de energias renováveis, afirma a Agência Internacional de Energia.

Embora um relatório de 2009 da agência classifique a transição de Portugal para as energias renováveis como um "êxito extraordinário", acrescenta também: "Não é suficientemente claro que os custos, quer económicos quer financeiros, bem como o seu impacto nos preços finais da energia aos consumidores, sejam bem compreendidos e apreciados."

De facto, as queixas acerca do aumento do preço da electricidade são desde há muito uma constante entre os reformados. Sócrates, que após uma vitória esmagadora nas eleições de 2005 implementou os elementos principais da renovação energética apesar das objecções da indústria dos combustíveis fósseis do país, apenas conseguiu sobreviver como líder de um governo minoritário no ano passado.

"Não é possível imaginar as pressões que sofremos nesse primeiro ano", afirma Manuel Pinho, ministro da Economia de Portugal desde 2005 até ao último ano, que foi em grande parte o responsável pela transição.

Ainda assim, as políticas agressivas para acelerar o uso de energias renováveis estão a ter êxito em Portugal e noutros países, segundo um relatório da IHS Emerging Energy Research, de Cambridge, Massachussets, uma destacada empresa de consultoria energética. Em 2025, Irlanda, Dinamarca e Reino Unido obterão também 40% ou mais da sua electricidade a partir de fontes renováveis; se incluirmos a energia proveniente de grandes barragens hidroeléctricas, um tipo mais antigo de energia renovável, países como o Canadá e o Brasil juntam-se à lista.

Os Estados Unidos, que no ano passado geraram menos de 5% da sua energia a partir de novas formas de energia renovável, sofrerão um atraso de 16% (ou pouco mais de 20%, incluindo a energia hidroeléctrica), segundo a IHS.

Para forçar a transição energética de Portugal, o governo de Sócrates reestruturou e privatizou serviços públicos de energia de forma a criar uma rede mais adequada às fontes de energia renovável. Para atrair empresas privadas para o novo mercado português, o governo ofereceu-lhes contratos a preço fixo durante 15 anos.

Em comparação com os Estados Unidos, os países europeus têm incentivos mais poderosos para adoptar as energias renováveis: muitos, como Portugal, têm poucos combustíveis fósseis de produção própria e o sistema de atribuição de licenças de emissão da União Europeia desencoraja a utilização de combustíveis fósseis ao exigir que a indústria pague pelas emissões excessivas de dióxido de carbono.

Portugal estava pronto para ser uma cobaia porque possui grandes e inexplorados recursos de energia eólica e hídrica, as duas fontes renováveis mais eficazes em termos de custo. Responsáveis governamentais dizem que a mudança energética não obrigou ao aumento de impostos precisamente porque as novas formas de electricidade, que não exigem combustível e não produzem emissões, substituíram a electricidade antes produzida a partir da importação e transformação de petróleo, gás natural e carvão.

Se os Estados Unidos querem apanhar países como Portugal, dizem os especialistas em energia, devem suplantar obstáculos como a rede energética fragmentada e antiga, pouco adequada às energias renováveis; a dependência histórica no fornecimento abundante e barato de combustíveis fósseis, principalmente o carvão; as poderosas indústrias de petróleo e carvão que se opõem com frequência aos incentivos para o desenvolvimento das renováveis; e a política energética que é largamente influenciada pelos estados a nível individual.

Os custos relativos de uma transição energética nos Estados Unidos seriam, inevitavelmente, mais altos do que em Portugal. No entanto, à medida que os custos das energias renováveis caem, um número crescente de países vê tal mudança como compensadora, diz Alex Klein, director de investigação para as energias limpas e renováveis da IHS.

A iniciativa de Portugal foi motivada pela necessidade: com os padrões de vida a crescer e sem produção própria de combustíveis, o custo das importações de energia - petróleo e gás natural - duplicou na última década, perfazendo 50% do défice comercial do país, e tornou-se altamente volátil. 

Portugal está agora no bom caminho para alcançar o objectivo de, em 2020, 60% da sua electricidade e 31% das suas necessidades tenham origem em energias renováveis, incluindo a energia hidroeléctrica em grande escala. 

O país superou preocupações acerca de fiabilidade e custos elevados. As luzes acendem-se em Lisboa mesmo quando o vento abranda na vasta central eólica do Alto Minho. Os custos de produção e os preços ao consumidor - incluindo os preços altos pagos pela energia proveniente de fontes renováveis - estão na média europeia mas mais altos do que na China ou nos Estados Unidos, países que dependem do carvão barato.

Portugal garante que manteve os custos baixos ao concentrar-se nas formas mais baratas de energia renovável - eólica e hidroeléctrica. Embora o governo estime que o investimento total para renovar a estrutura energética seja de 16,3 mil milhões de euros, esse custo é suportado pelas empresas privadas que exploram a rede e as centrais renováveis e reflecte-se no preço da electricidade ao consumidor. O retorno financeiro das empresas está assegurado pelos 15 anos de preços grossistas estáveis garantidos pelo governo. Assim que a nova infra-estrutura fique completa, afirma Pinho, o sistema custará menos 1,7 mil milhões de euros por ano, em grande parte porque evitará a importação de gás natural.

Fujino, da Agência Internacional de Energia, diz que os cálculos de Portugal talvez sejam optimistas. Porém, ressalva que a transição portuguesa criou também uma nova indústria: no ano passado, pela primeira vez, Portugal tornou-se exportador de energia, vendendo uma pequena quantidade de electricidade a Espanha. Dezenas de milhares de portugueses trabalham no terreno. A Energias de Portugal (EDP), a maior empresa energética do país, é proprietária de centrais eólicas nos EUA.

Dirigir um país que utiliza electricidade derivada das forças altamente imprevisíveis da natureza requer novas tecnologias e dotes de malabarista. Uma central eólica que produza 200 megawatts numa hora pode produzir apenas cinco megawatts na hora seguinte; o sol brilha de forma intermitente em muitos sítios; a energia hidroeléctrica é abundante no Inverno chuvoso mas é limitada no Verão em em períodos de seca.

A Redes Energéticas Nacionais ( REN, usa modelos sofisticados para prever o tempo. "São necessários novos conhecimentos: é uma operação em tempo real e há muitas decisões a tomar, a cada hora, a cada segundo", diz Victor Baptista, director-geral da REN. "O objectivo é manter o sistema a funcionar e evitar apagões."

Portugal gerou, durante décadas, electricidade a partir das barragens. Mas os novos programas combinam água e vento: turbinas movidas a vento bombeiam água durante a noite, depois, a água flui durante o dia, gerando electricidade, quando a procura é mais alta.

O sistema de distribuição português é hoje uma rua de dois sentidos. Em vez de fornecer apenas electricidade, recolhe-a até dos geradores mais pequenos, como, por exemplo, painéis solares em casas particulares. O governo encoraja tais contribuições estabelecendo um preço vantajoso para quem compre electricidade gerada por painéis solares.

Para assegurar uma base energética estável quando as forças da natureza não colaboram, o sistema necessita de manter uma base de combustível fóssil para ser usada quando necessário. Embora as centrais térmicas funcionem hoje menos horas do que antes, o país está a construir centrais a gás natural mais eficientes. Portugal começou a modernizar a sua rede há uma década. O fornecimento de uma maior parcela de renováveis custa 480 milhões de euros, uma despesa incorporada no preço da electricidade, diz a a REN.

O presidente Barack Obama ofereceu milhares de milhões de dólares em concessões para modernizar a rede dos Estados Unidos, mas não é claro que tal esforço seja adequado às energias renováveis. Autorizações diversas em diferentes estados e o facto de muitas empresas privadas controlarem fragmentos locais da rede tornam difícil o transporte de energia de longa distância do ventoso Iowa para consumidores em Atlanta. A Sociedade Americana de Engenheiros Civis afirma que a rede dos Estados Unidos "necessita de modernização urgente."

Um relatório de 2009 do Pew Center on Global Climate Change estima que os Estados Unidos teriam de gastar dois a três mil milhões de euros por ano nos próximas duas décadas para criar uma rede que possa produzir 20% da electricidade a partir da energia eólica em 2030 - um aumento de 40 a 50% em relação aos gastos actuais.

Os especialistas em energia consideram a experiência portuguesa um êxito. Mas há também há perdedores. Ambientalistas contestam sobretudo o impacto ambiental das novas barragens. 

Até se tornar na maior central eólica a sul de Lisboa, Barão de São João era uma aldeia adormecida da Costa Alentejana, habitada por agricultores que cultivavam os seus montes e por turistas atraídos pelo preço barato da terra e pela vista idílica.

"Bem sei que é bom para o país porque é energia limpa e é bom para os proprietários que receberam dinheiro, mas a mim não trouxe nada de bom", diz José Cristino, um agricultor robusto que trabalha a terra com o ruído das turbinas eólicas sempre presente. "Estou sempre a olhar para estas coisas, dia e noite", diz, acrescentando que 90% da população da aldeia se opôs à central eólica.

Em Portugal como nos EUA, os políticos venderam programas de energia limpa às comunidades com a promessa de criação de emprego. Mas a nível local, o efeito provou ser limitado. 

Há mais de cinco anos que a isolada cidade de Moura alberga, na Amareleja, a maior central solar do país, porque "não há lugar na Europa que tenha mais sol, para além de ter muito espaço livre", afirma José Maria Pós-de-Mina, o presidente da câmara. No entanto, embora a central da Amareleja tenha sido construída por 400 pessoas, apenas 20 a 25 trabalham nela actualmente.

fonte:Ionline

 

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publicado por adm às 20:59 | comentar | favorito